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A mão que segura o livro

Créditos: Tiago Segabinazzi

 

Enquanto escrevo este texto, o STF está para julgar a constitucionalidade do ensino domiciliar - a possibilidade dos pais não enviarem os filhos às escolas e eles mesmos educá-los em casa. Para um aluno como eu, que rejeitava mais da metade do conteúdo ensinado por considerá-lo inútil ou menos interessante do que outras competências, é fácil defender essa proposta.

O homeschooling pode proporcionar um conteúdo mais personalizado ao indivíduo e suas aspirações: a criança como guia da formação do próprio conhecimento ao invés da adoção de um modelo padrão; seu interesse poderia conduzi-lo a descobertas próprias, reunindo saberes que as disciplinas autonomizaram e fragmentaram ao longo do tempo em nome da eficácia e burocracia modernas.

A balança que pende para o lado da formação racional seria quem sabe reequilibrada em relação à corporeidade, o que permitiria valorizar habilidades que cada um tende a desenvolver ao invés de julgá-las segundo uma régua lógico-linguística que até pode servir como exercício cognitivo, mas privilegia algumas coisas e exclui outras. Isto nos conduz para algo mais amplo: em que medida podemos/devemos colocar normas coletivas sobre escolhas pessoais?

Contudo, o debate não pode ser descolado do mundo. O ensino escolar promove a sociabilidade: e isto não é somente aprender a encarar o mundo para lhe enfrentar e vencer na vida, mas entrar em contato com suas diferenças e colocar em questão as verdades que nos estão dadas.

Já temos o exemplo da formação de bolhas discursivas promovidas por algoritmos de sites de rede social, realimentados com conteúdos que consumimos e que estamos dispostos a consumir. Ensinar exatamente aquilo que se quer que o filho aprenda pode conduzir a uma visão de mundo ao alcance dos olhos dos pais. E a possibilidade de romper com o que nos ensinam sem questionamento, pessoalmente, é o maior valor do saber.

Num mundo ideal, de convivência amigável, sem preconceitos e segregações de toda ordem, seria fácil optar pela liberdade de ensino customizado, num espaço à parte da escola. Num mundo ideal não contradito pela realidade.


Tiago Segabinazzi

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