Reportagens Especiais

Gaúchos comemoram o atrevimento da faca contra o canhão

Poucos gaúchos sabem que não festejam uma vitória, mas sim uma ousadia. Eles foram atrevidos...


Leonildo Erthal caminha pelos corredores de um colégio particular. Arruma cadeiras, faz pequenas pinturas e relembra o tempo em que frequentava o CTG. Seu sonho é comprar um sítio em um recanto no Vale do Taquari. Tem orgulho de ser gaúcho. Seu "Leolindo", como os alunos o chamam, infla o peito para cultuar os heróis farrapos. "Sim, sim, tenho bombacha e ajudei a fundar um CTG." Mas Leonildo fica meio desconcertado quando percebe que os farrapos não ganharam guerra nenhuma. "É mesmo? Bom, aí tu me pegou. Mas aqui é bom de morar. O povo gaúcho é acolhedor." E com a bandeira ao fundo, o encarregado da manutenção do colégio vive o bairrismo que em todo o gaúcho palpita - a paixão pelo Rio Grande.
O gaúcho traz no peito uma chama que já nasce de guri: um orgulho que vem de casa. Mesmo que não vista bombacha, o chimarrão na boca do pai, a alma inflada de orgulho e um coração atrevido por causa de 177 anos de história que ele muitas vezes nem sabe o motivo estão inseridos numa história contada na escola por intermédio da Revolução Farroupilha. É verdade que muitos não compreendem bem os motivos da comemoração, só se sabe que o 20 de setembro "foi o precursor da liberdade". Mas esta história tem um lado B.
O lado B tem um bairrismo que muito nos honra e que é ensinado com habilidade pelo professor de História Marcelo Mallmann, do Colégio Evangélico Alberto Torres (Ceat), que trata de botar todos os pingos nos "is". Em primeiro lugar, a revolução foi feita pelos "caras" ricos da época, pelos reis do gado gaúchos. Isso ocorreu há 177 anos.
"A Revolução Farroupilha começou quando a elite se revoltou contra o Império que preferia comprar o charque do Uruguai, que tinha melhor preço. Os pecuaristas gaúchos exigiam uma política de proteção ao produto interno."
Naquela época, Dom Pedro era um piazote, e o Império era governado por regentes - representantes do imperador, criando um cenário tumultuado com disputas políticas internas. Foi nesse panorama que a guerra eclodiu, com os pecuaristas chamando os farrapos para fazer a revolução.
Durante dez anos, os gaudérios lutaram contra o Império. O professor Marcelo diz que ninguém saiu ganhando porque numa guerra ninguém ganha. Depois de dez anos de intensos conflitos, a paz foi estabelecida por um acordo em que a elite gaúcha aceitou os benefícios oferecidos pelo governo imperial como, por exemplo, o ingresso no Exército Imperial com a mesma patente que ocupavam nas forças farroupilhas e a garantia de que o Estado adotaria uma política de proteção à carne sulista. É o conhecido acordo de Ponche Verde.
 
Bairrismo
O povo em geral, inclusive negros escravizados, aderiram ao ideal farroupilha porque acreditavam que essa seria uma oportunidade de criar uma sociedade mais justa. Conforme Marcelo, a História mostra que as mudanças sonhadas em momentos revolucionários não são tão profundas quanto os discursos nos fazem crer. A comprovação disso são a Revolução Francesa (1789) e a Independência dos Estados Unidos (1776), eventos que simbolizam o início de uma nova era histórica, mas que não promoveram mudanças tão radicais quanto as desejadas por boa parte das pessoas que as vivenciaram.

Nacionalistas, sim, senhor
Mas então, por que tanta comemoração, tanto orgulho farroupilha 177 anos depois? O mito do heroísmo gaúcho está insculpido nas canções campeiras e no brio. "Nós tivemos atrevimento. Tivemos coragem de enfrentar o Império. A comemoração é em memória a esse atrevimento." Para o professor, a população está muito mais acomodada hoje do que há um século e meio. A indignação da época imperial arrefeceu-se em meio à era tecnológica. "Aceitamos pacificamente, não nos revoltamos mais. Faltam-nos lideranças políticas gaúchas que contestem a tradicional política nacional, como fizeram nossas lideranças na época da Revolução Farroupilha."
Para o professor, o bairrismo gaúcho é salutar à nossa autoestima. "O nosso bairrismo está embasado no 20 de setembro porque tivemos coragem de afrontar o império, mas não deixamos de ser nacionalistas."
Somos bairristas porque fomos colonizados de forma diferente. Nossa história é especial. A partir do Tratado de Madri, as famílias da Europa não vieram apenas para explorar nossas riquezas, mas desembarcaram com o intuito de ficar, formar família e trabalhar aqui, criar vínculos e laços. Isso nos elevou a autoestima. Hoje, as propagandas dizem isso.
O comentarista Arnaldo Jabor exaltou que o que falta ao povo brasileiro é esse orgulho que existe no gaúcho. "Uma pessoa que tem orgulho do seu chão tem mais responsabilidade ao votar e cuida melhor de seu patrimônio histórico, artístico, natural e cultural. Esse é o diferencial do nosso povo", enfatiza Marcelo.

Propagandas e o bairrismo
Lançada em 1929, em Estrela, a cerveja Polar tem um dos sites mais bairristas e bem-humorados, tanto que se tornou referência em marketing. O comercial, feito pela Agência Paim, reforça a conexão com o povo gaúcho e tem mais de 36 mil acessos. Com o tema "Gaúcho sem modéstia", a marca é citada nas disciplinas de Marketing da Univates e exalta as melhores "coisas do mundo" do Rio Grande do Sul. Cita Anta Gorda, as praias gaúchas, o "Rio" Guaíba, ainda que "meio" sujo, e as tradições sulistas.
O professor universitário e especialista em Marketing Fábio Kremer diz que faz parte da natureza do gaúcho essa ambiguidade. Antigamente se era ximango ou maragato, hoje gremista ou colorado. "Qual outro povo que sabe cantar o hino de seu Estado?" O bairrismo gaúcho não é depreciativo. "Eu vejo com bons olhos. Se todos tivessem tal sentimento, seríamos um país melhor. Basta pegar casos de políticos gaúchos envolvidos em escândalos; são em números menores. Acredito que um pouco desse valor acaba sendo resgatado por todos nós. O nosso bairrismo auxilia na autoestima." E a fazer marketing.

Contra a corrupção
Em cavalgadas, o gaudério propagandeia a Chama Crioula, com o trote do cavalo parceiro de muitas léguas. Mas o coordenador da 24ª Região Tradicionalista, Gerson Junqueira, diz que o movimento tradicionalista troteia contra a corrupção e contra o uso das drogas. "É um povo que enfrenta as situações." A pergunta que não quer calar para o povo tradicionalista é: mas por que os gaúchos comemoram algo que não foi necessariamente uma vitória? Junqueira tem a resposta na ponta da língua: "O gaúcho foi em defesa do pago de faca, enquanto o Império tinha canhões e armamento pesado. Esse é nosso orgulho. A partir da revolução, se tornou um povo respeitado."

Andréia Rabaiolli
andreia@informativo.com.br

Comentários

VEJA TAMBÉM...