Mulheres que Transformam

Tânia Maria Alves

A rua, o lixo e uma vida

Créditos: Redação
- Lidiane Mallmann

Não há revolta, inveja ou tristeza. Não há sentimento ruim na dona de casa Tânia Maria Alves (46). Tudo isso porque a vida foi fácil ou generosa? Não é bem assim. Talvez seja porque, ao invés de reclamar, ela prefira colocar em prática uma palavra da moda: gratidão.

Tânia, que mora no Bairro Conservas, em Lajeado, e é mãe de sete filhos, teria motivos para se queixar da vida. Começou a trabalhar com 15 anos no setor de abate da Minuano, na época. Aos 18 anos, ela casou e teve o primeiro filho, Jacson (28). Um ano mais tarde, nascia a segunda filha, Jaqueline (27). Na sequência, foram mais cinco crianças. Para ajudar o marido João Volmir Cardoso, que era chapa, ela trabalhava como faxineira. "Chegou o dia em que eu fiquei cansada de limpar casas. Daí decidi ir catar lixo, foi uma opção minha."

E foi assim que Tânia começou a ganhar as ruas de Lajeado com seu carrinho de coleta. Ela fazia três viagens por dia e passava bairros como Centro, Moinhos, Americano e Hidráulica. Carregava papelão e tudo que fosse reciclável. Em casa. o marido fazia a separação.

Na época, os três filhos mais velhos a acompanhavam nos roteiros. Quando não estavam na escola, iam ao lado da mãe. ?gEu colocava um chapeuzinho neles, levava um litrão de água e saíamos. Ninguém de nós nunca teve vergonha de ser catador. É um trabalho honesto?h, afirma Tânia, orgulhosa do serviço que teve e dos filhos que criou.

 

Valor do trabalho

Foi sendo catadora e levando os filhos junto para a rua que Tânia acredita que mostrou a eles o valor do trabalho. "Ter um trabalho é uma coisa muito boa. Eu nunca tive preguiça para nenhum serviço", conta.

Tânia deixou a função de catar lixo há cerca de três anos, mas não por vontade própria. Um dos sete filhos é especial e o marido precisou se encostar por problemas de saúde. Isso fez com que ela precisasse ficar mais presente em casa. Mas como tem saudade da época em que percorria as ruas. "Era bom. Se eu pudesse voltar a fazer isso, eu voltava. Com chuva ou com sol quente, eu ia para rua. Não me importava."

 

A rua

Os quase dez anos passando pelas mesmas ruas fizeram de Tânia uma figura conhecida. Havia moradores que separavam roupa para as crianças dela ou mandavam comida. "Ainda tem muita gente boa nesse mundo. A maioria das pessoas respeita quem é catador", acredita.

Foi no período em que era catadora que ela perdeu a mãe - a sua referência - e o pai também, logo em seguida. "Eu sofri muito quando eles morreram. E a rua me ajudou muito nessa fase: eu me distraía caminhando, conhecendo as pessoas e recolhendo o meu lixo", comenta Tânia, a quem a rua proporcionou muito.

 

A relação com o lixo

Embora tenha estudado apenas até o 5º ano, Tânia tinha consciência de qual era o seu papel para o meio ambiente também. Ela sabe que o resíduo que ela recolhia não ia parar no Rio Taquari, por exemplo. Mas mesmo assim, ela lamenta: "Tem gente que joga muita coisa boa fora, desperdiçam mesmo."

 

Gratidão

Andando pelos bairros de Lajeado, Tânia passava em frente a muitos prédios bonitos e casas luxuosas. "Nunca senti inveja. Acho que a gente precisa trabalhar para ter o que é da gente."

Para ela, a riqueza está nos sete filhos. "Minha mãe teve seis filhos. Eu sempre pensava que queria ter sete. Depois de Deus, eles são a coisa mais importante para mim. Rezo todos os dias para eles", diz. Ela se orgulha de "nenhum ter dado preocupação" e de todos terem ido para escola. Jacson e Diemerson, inclusive, trabalham hoje no caminhão de lixo, como coletores. "Sempre digo: é um serviço digno e eles aprenderam isso quando saíam para catar lixo comigo."

Sobre a satisfação com a vida que leva, embora as dificuldades financeiras existam - Tânia, o marido e quatro filhos vivem com dois salários mínimos - ela justifica: "Não vale a pena reclamar, tem gente que passa coisas muito piores". E deixa uma lição. "Eu penso que todo mundo deveria valorizar o trabalho, levantar a cabeça e ir em frente. É assim que se conseguem as coisas", ensina, com a sabedoria que a rua lhe deu.

Os sete filhos de Tânia: Jacson (28), Jaqueline (27), Diémerson (24), Diana (21), João Émerson (16), Éverson (14) e Vitória (7). Além de mãe, Tânia também é avó de Ruan, Kaelen e João.

 

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