Mulheres que Transformam

Reni Teresinha Lawall

A missão de mostrar o diferente

Créditos: Fernanda Mallmann
Reni é coordenadora da Adefil desde 2012 - Lidiane Mallmann

Lajeado - Há situações na vida que parecem castigo. No entanto, depois de algum tempo, passam a fazer sentido. Quando nasceu, o segundo filho de Reni Teresinha Lawall (51) era perfeito. Só depois de alguns meses, ela percebeu que algo não estava certo. Foram várias idas a médicos até que veio o diagnóstico: Diogo Berté (30) tinha autismo num grau severo. A constatação foi um choque: "Quando eu soube que o Diogo era autista, vieram os porquês. Por que comigo? Por que meu filho?". Reni encontrou as respostas no passado.

Desde criança, ela acompanhava o trabalho da mãe, em São Miguel do Oeste (SC), onde moravam. "Eu ia com a mãe. Nós andávamos quilômetros fazendo visitas a quem não podia sair de casa. A mãe cortava cabelo. Naquela época, não havia atendimento às pessoas deficientes. Eram consideradas loucas e algumas até viviam enjauladas."

Outra criança talvez se assustasse, mas Reni não. "Eu adorava fazer essas visitas com a minha mãe. Por isso que, com o tempo, fui perceber que eu já tinha sido preparada para ter um filho autista. Acabou sendo mais fácil para mim."

Se a vida alinhavou Reni para ter um filho especial, Diogo também se encarregou do futuro da mãe. Quando o menino era pequeno, Reni foi procurada pela irmã Maria de Lourdes Longo, fundadora da Associação de Deficientes Físicos de Lajeado (Adefil). A religiosa ofereceu ajuda a Diogo e convidou Reni para auxiliá-la na associação. Então, ela passou a acompanhar a irmã nas visitas a famílias com pessoas com deficiência, a fazer artesanato e a organizar chás para angariar recursos para a entidade. Era o começo do que viria ser o seu futuro.

O início

A partir do momento em que irmã Maria de Lourdes Longo apresentou a Adefil à Reni, ela nunca mais se desligou da entidade. São quase 30 anos de dedicação. Desde 2012, Reni é coordenadora da associação, ano em que o prédio da entidade, no Bairro São Cristóvão, também foi inaugurado. À frente do cargo, o trabalho é diário e de formiguinha. As conquistas são lentas, mas as vitórias compensam qualquer esforço. Um dos maiores orgulhos de Reni é justamente poder ter participado da principal conquista da Adefil: ter uma sede própria.

Em contrapartida, as decepções são amargas. Até o ano passado, 80 famílias eram assistidas pela equipe da Adefil, que conta com uma assistente social, psicóloga, orientadora de oficinas, educador físico e auxiliar técnico. Com a perda de recursos, teve de cortar os atendimentos pela metade. "Hoje temos 40 famílias assistidas. As demais, continuamos visitando, mas queremos trazê-las de volta."

A vitória do basquete

Um dos projetos que mais encantam Reni na Adefil é o Basquete Sobre Rodas, que começou em 2002. Hoje, são 25 atletas da região que participam da equipe, que treina todas as segundas, quartas e sextas-feiras, no Parque do Imigrante. Dos 25 participantes, 23 tiveram lesões adquiridas, ou seja, tornaram-se deficientes ao longo da vida. "Eu vejo a importância que o basquete tem para essas pessoas. Ele é uma porta para reinserção para a vida."

Reni orgulha-se da equipe já ter participado de competições até no Uruguai. "Isso dá motivação, são experiências de superação o que vemos entre eles." Mas continuar com o time também não é fácil. "Mantemos a equipe mendigando recursos. Faço muitas visitas buscando empresas para nos apoiar. Neste ano, a expectativa é pela chegada de uma verba federal", conta.

Mas as ideias de Reni não param. A primeira meta é retomar o atendimento às 80 famílias. Além disso, ela pretende ver sair dos seus planos um projeto de dança em cadeira de rodas e a construção de um ginásio, junto à sede da Adefil, para os treinos de basquete.

Discriminação

O filho de Reni tem o grau mais severo de autismo e não fala uma única palavra. O que não impede de se comunicarem, por meio de um gesto, de um olhar. "Para o autismo não tem receita. O amor é o melhor medicamento. A pessoa deficiente o absorve", afirma, convicta. Mesmo com esta dedicação, não dá para proteger quem é especial. "A discriminação existe todos os dias. É difícil sair de casa com uma pessoa diferente. Às vezes, o preconceito vem de gente esclarecida, às vezes está na própria família." Por isso, seu recado é de inclusão. "Coloquem estas pessoas fora de casa, elas precisam disso. É o espaço delas também. Se elas puderem trabalhar, deixem que trabalhem. O tempo ocioso deixa qualquer um doente."

História de vida

No finalzinho do ano passado, quando muitas pessoas já estavam em recesso e férias, Reni permanecia na sede da Adefil. Por isso, em 27 de dezembro, ela conseguiu a aprovação de um projeto que deve garantir verba à entidade este ano. Tanta dedicação vale a pena? Sem dúvida. "Não me imagino fazendo outra coisa. A gente conquistou tanta coisa, fez valer o direito das pessoas com deficiência." Essa é a realização de Reni, que, desde criança, aprendeu a respeitar o que é diferente.

 

 

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