Mulheres que Transformam

Marlene Lúcia Pasetti

Corrente do bem

Créditos: Naiâne Jagnow
- Lidiane Mallmann

Quando uma pessoa precisa de comida, água, roupa, cobertor ou simplesmente um conselho pode encontrar tudo isso em um único lugar de Lajeado. Marlene Lúcia Pasetti (50) fez de sua fruteira mais do que um estabelecimento comercial - a Casa Velha é um ponto de solidariedade.

Aos 28 anos, Marlene deixou Anta Gorda para morar em Lajeado. "Lá, eu trabalhava na roça e queria sair. Vim para cá como sócia. Comprei metade na fruteira. Foi difícil no começo, eu não conhecia ninguém e estava longe da família", relembra. Apesar das dificuldades, ela sempre ajudou quem precisava, mesmo sem receber nada em troca. "Esses dias, um senhor estava dormindo e eu deixei um sacolinha com bolacha, frutas e água. Ele nem sabe quem foi, mas quando acordou, tenho certeza de que encontrou o lanche do dia", conta, sem esconder o sorriso.

Agora, como proprietária integral da fruteira, Marlene faz da caridade a sua bandeira. Há cerca de dois anos, ela implementou o lanche solidário. A ideia surgiu de uma amiga e foi inspirada em países europeus. "Nestes lugares, tem pessoas que deixam o lanche pago para quando chegar alguém com fome", explica. Antes, ela já oferecia alimento a quem precisava, mas, agora, conta também com a comunidade. "Seguido tem gente que deixa dinheiro ou compra alguma coisa e fala que é para os moradores de rua."
Além do lanche solidário, Marlene atua em outras causas. Ela guarda tampinhas para a Liga Feminina de Combate ao Câncer de Lajeado e para a Amando, Protegendo e Ajudando Muitos Animais (Apama); distribui papelões para os moradores de rua; doa roupas, calçados e cobertores para quem precisa; e ajuda os animais de rua. Para ela, fazer o bem é contagiante. "É como uma corrente do bem. Se você começa a ajudar outras pessoas, parece que anima outras a fazerem o mesmo."

"... a sensação de fazer o bem é maior que tudo. Não tem coisa que pague o sorriso e olhar de uma pessoa que vem com fome e ganha um lanche e um café quente."

Sem preço
De vez em quando, é difícil conciliar tanto trabalho. "Às vezes, chega 11h e eu não consegui comer nada no café da manhã, mas fiz sanduíches para uns três ou quatro que passaram por aqui", comenta Marlene. Apesar disso, ela se considera abençoada. "Eu acredito que sou a maior beneficiada. Porque a sensação de fazer o bem é maior que tudo. Não tem coisa que pague o sorriso e olhar de uma pessoa que vem com fome e ganha um lanche e um café quente." Muitas das pessoas que passaram pela Casa Velha retornam para agradecer. Isso me enche de alegria. "Alguns conseguiram se reerguer. Eles se internaram e saíram da droga. Hoje voltam aqui e falam: 'Ei, tia, lembra de mim?'.'" Jovens, adultos, velhos, ricos ou pobres, independentemente de quem for, Marlene trata a todos com igualdade. "Não importa quem seja, eu atendo com bom humor, simpatia e educação."

Amor pelos animais
Os animais não passam despercebidos pela Marlene. Ela tem cinco, todos adotados da rua. Na frente da fruteira, é possível ver os potes de comida e água dos cães Belo e Bela. E os dois são velhos conhecidos de muitos na Rua Bento Gonçalves. Em casa, ficam os três gatos, o Alberto, o Felix e a Angelina. Ela também ajuda a encontrar um lar aos que aparecem na redondeza. A motivação para tanto amor é simples. "Eu acho que, quando a gente se propõe a ajudar tanto os animais como as pessoas, as oportunidades aparecem", afirma.
Muitos se engajam na luta com Marlene. Bela tem alergia à saliva das pulgas. Alguém pensou que fosse sarna e denunciou na prefeitura. "Mas de 1,2 mil pessoas aderiram a um abaixo-assinado para que os dois ficassem aqui." Quando o gato Félix caiu do quinto andar do prédio, uma ação entre amigos arrecadou dinheiro para os gastos com a clínica veterinária.

Espiritualidade
Marlene Pasetti também ajuda o próximo com seu trabalho no centro espirita. "Vou duas vezes por semana, na segunda e na quinta-feira. Lá também a gente vê as pessoas melhorando", comenta. Ela também usa sua sensibilidade para ouvir os moradores de rua que passam na fruteira. "Eu deixo que desabafem. A caridade é fazer com que todos saibam que são filhos de Deus e iguais a nós", defende. Para ela, cada coisa que acontece tem um propósito. "As pessoas estão no nosso caminho para fazer com que o nosso coração amoleça, às vezes."

 

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