Mulheres que Transformam

Lisandra Brunetto

A liturgia deu vida a uma comunidade

Créditos: Fernanda Mallmann
- Lidiane Mallmann

Imagine sua reação à pergunta: "O que você fez por você mesmo que mudou a sua vida?" Parece difícil? Para Lisandra Brunetto (46), a resposta está na ponta da língua: foi uma leitura do folheto litúrgico na missa de domingo.
A dificuldade na fala, durante a infância na localidade de Bela Vista do Fão, interior de Marques de Souza, fez de Lisandra uma menina extremamente retraída. Até que chegou o dia em que pensou que precisava mudar essa realidade. Por conta própria, foi até a Igreja Nossa Senhora de Lourdes, ao lado da casa onde morava, e se ofereceu para ler um trecho do folheto.
O nervosismo era tanto que ela emendou vários comentários e leituras, apesar dos percalços na dicção. "Envergonhada, eu imaginei: 'Nunca mais vou à missa'." Um mês depois, ela voltou, sim, às celebrações e às leituras. "Eu pensei que, se eu não desse um jeito de superar as minhas dificuldades, eu nunca sairia daquilo, nunca deixaria de ser aquela pessoa retraída."
Essa decisão criava uma líder comunitária.

Necessidade de mudar
Aos 14 anos, Lisandra saiu de casa. Foi para Porto Alegre com um desejo fixo: queria ser irmã, uma missionária que ajudava as pessoas pelo mundo. Em Viamão, estudou em colégio de freiras e, na Capital, morou em uma casa de irmãs franciscanas. Formou-se no Magistério, deu aulas em escolas, envolveu-se em atividades em comunidades, e fez os primeiros votos para se tornar religiosa.
Quando tinha pouco mais de 20 anos, numa das visitas que fez para os pais em Bela Vista do Fão, os planos precisaram mudar. Problemas de saúde na família, fizeram com que ela optasse por voltar para casa.
Foi aí que a revolução na comunidade começou. A experiência dos trabalhos sociais, ela reproduziu na sua comunidade. A primeira ação foi montar um grupo de teatro com crianças, em 1992. "Eu voltei e vi que ali existiam muitos talentos, mas ninguém acreditava em si."
O grupo conseguiu mudar isso. Hoje, 70 pessoas participam dele - o ponto máximo é a encenação da Via Sacra - e a comunidade de Bela Vista do Fão tem apenas cerca de 150 moradores. Ou seja, quase metade da população é ator ou atriz amador. Essa adesão enche Lisandra de alegria e, quem sobe ao palco, se supera a cada apresentação.

Iniciativa
Além do grupo de teatro, Lisandra Brunetto, que hoje trabalha como protética em Lajeado, cidade onde mora também, se envolveu em mais inúmeras iniciativas nestas últimas duas décadas. Trouxe mais música, com canto e violão, para as missas de sábado à tarde, puxa a frente para fazer a decoração natalina da vila quando é Natal, envolve-se na organização das festas comunitárias, como o Filó Italiano e a Festa da Bergamota. E não tem dúvida que vale a pena. "Na última Festa da Bergamota, tivemos mais de 200 produtos derivados da fruta. São coisas que as pessoas da comunidade fazem, produzem. O meu trabalho é valorizar isso tudo."
Para que essas tradições não se percam, hoje a principal preocupação de Lisandra é com os jovens. O costume de receberem tudo pronto afastou os mais novos um pouco do trabalho. Ela gostaria que eles participassem mais e estivessem mais presentes e envolvidos com a vida comunitária.

Amor ao seu chão
Nos finais de semana, o rumo de Lisandra e do marido é Bela Vista do Fão. Mas nem por isso ela está desconectada ao dia a dia da comunidade. "Criei uma página do Facebook. Agora, as pessoas que moram lá me mandam fotos, informações." Com o alcance das redes sociais, ela prevê também que muitas pessoas que saíram da localidade vejam o que é feito de bom, se encantem e voltem para Bela Vista do Fão. Seja para uma festa, para um fim de semana ou, que sabe, para ficar de vez.

Motivação
Ela não quer ser candidata a nada. Tão pouco acredita que faça muito. "Eu não me sinto fazendo nada diferente. Só faço o que todo mundo poderia fazer, mas muitos dizem que não têm tempo." Mas por que tanto envolvimento? "Eu gosto muito da minha comunidade. Eu penso que, se a pessoa não gosta do lugar onde nasceu, ela também não vai gostar do seu trabalho, do seu país", relata.
No amor por sua terra, Lisandra também vê uma fórmula para recriar um país. "Temos de ser cidadãos, fazer a nossa parte e trabalhar. Fazendo isso, todos poderemos ser agentes de transformação", acredita Lisandra.
Mais do que o seu trabalho, Lisandra enaltece o das pessoas da comunidade, povo acolhedor e muito religioso. É nisso que ela aposta para seguirem em frente, olhando um pelo outro e ajudando a todos. "Se ninguém fizer nada, dentro de dez anos, as comunidades do interior vão deixar de existir." É contra isso que Lisandra trabalha. Vida longa a Bela Vista do Fão, que Lisandra não vai deixar esmorecer.

 

Comentários

VEJA TAMBÉM...