Mulheres que Transformam

Dorli Maria Schneider

A mãe que muita gente escolheu

Créditos: Fernanda Mallmann
- Lidiane Mallmann

Os filhos de sangue da professora aposentada Dorli Maria Schneider (74) são Paulo, Maurício e Eduardo. Mas e aqueles para quem ela se tornou mãe ao longo da vida? Estes não dá para contar nos dedos.

A estrelense se formou professora aos 18 anos. Fez do magistério a sua profissão e sua paixão. Lecionou em escolas e, anos mais tarde, trabalhou na 3ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE). Foi lá que conheceu Maria Ofélia Moesch, uma educadora que foi sua inspiração. "Ela marcou toda a minha vida, tudo que eu sou. A maneira como eu trabalho tem muito a ver com ela." Entre as oportunidades que Maria Ofélia apresentou para Dorli, duas ela lembra em especial: a criação de uma creche no primeiro conjunto habitacional da Cohab de Estrela e um trabalho de ressocialização com engraxates. Estava ali o despertar que iria torná-la mãe de muitos.

 

O trabalho mais lindo

Com a aposentadoria na CRE, veio também um novo desafio. O ano era 1990, e o então prefeito de Estrela, Leonildo José Mariani, convidou Dorli para iniciar um trabalho com crianças. "Era uma época em que estavam surgindo muitos menores nas ruas. Iniciamos com 14 crianças numa estrutura bem improvisada", relembra.

Era o início do Centro Municipal de Educação Integrada (Cemai). "As 14 crianças logo passaram para 30, e assim foi. Quando vimos, atendíamos 300." O Cemai, aos poucos, foi montando cozinha, padaria, marcenaria, ateliê de costura, coral, banda, escolinha de esportes e aula de reforço. Em turno oposto à escola, era lá que a gurizada passava o tempo ao invés de ficar na rua.

Além dos lanches e almoço, havia chuveiro elétrico para o banho. "A gente alimentava, vestia, dava banho, levava no dentista, no médico. Eu nunca permiti que uma criança fosse para casa, numa sexta-feira, se ela estivesse com dor de barriga. Antes disso, levava no Pronto Socorro para ver o que estava acontecendo." Na sexta-feira, também era dia de festa no Cemai. "Eu exigia das cozinheiras, do pessoal da padaria, que fizessem tudo do bom e do melhor. Porque eu não sabia como as crianças iriam passar o fim de semana", recorda.

Tanto cuidado, tanto carinho, não tinha como não resultar em coisa boa: "O Cemai era a minha vida, foi o trabalho mais lindo que eu fiz. Se eu tivesse que recomeçar, começaria tudo de novo pelo Cemai. Eu era muito mãezona daquelas crianças, porque eu amava de verdade e eu acho que elas sentiam isso", relata Dorli, lembrando dos "filhos" que o Cemai lhe deu.

 

Reconhecimento

Nem tudo foram flores, como diz Dorli, na trajetória de Cemai. "Eu conheci maconha através deles. Eu sei que dois de nossos alunos já foram assassinados por causa de droga." Mas isso nunca foi desculpa para dar o trabalho como perdido. Aliás, caso perdido não existe para ela: "Eu acho que hoje se diz muito 'não'. Eu penso que primeiro é preciso conversar, conhecer, tentar. Nunca mandei ninguém embora do Cemai, sempre quis trazer as crianças de volta, reintegrá-las à sociedade".

A receita deu certo. Se existem as frustrações, há muito mais casos de sucesso. "Quando eu saio de casa, eu nunca posso dizer: 'eu volto daqui uma hora', porque eu não sei quando eu vou voltar. Caminhando, eu ouço sempre alguém gritando: 'tia Dorli'... Sempre encontro algum ex-aluno que com quem paro para conversar um pouquinho."

 

Uma história

Se cada aluno é único, de todos Dorli levou um pouco. Mas uma história é especial. Há alguns anos, um ex-aluno publicou uma mensagem no Facebook de Dorli. Nela, ele relatava que recordava da mestra com carinho por uma situação em especial. Era um dia chuvoso, fazia frio e ele havia chegado no Cemai com a roupa toda molhada. "Ele disse, no texto que escreveu para mim, que eu olhei para ele e senti que ele estava com frio. Então, peguei-o, levei-o para trocar de roupa - nós sempre ganhávamos roupas da comunidade -, agasalhei-o. E ele disse que, naquele momento ele pensou: eu nunca mais vou estar sozinho na vida. Eu chorei muito quando li tudo isso", emociona-se.

Esse mesmo ex-aluno procurou Dorli, anos atrás, e pediu que ela fosse fiadora do material de construção para construir a sua casa. Ela aceitou. "Esses dias, eu pensei: vou procurar a casa dele. Fui, mas eu procurava uma casa com tijolo, sem estar rebocada. Daqui a pouco, vejo ele numa de um capricho, parecia uma casa de boneca." Este mesmo ex-aluno, conforme Dorli, tem faculdade, um trabalho e uma família linda. Foi longe o "piá" que ela agasalhou no passado.

 

Sobre gostar de gente

Dorli deixou o Cemai em dezembro de 2000, quando houve troca de governo. Não ficou muito tempo parada, pois logo foi chamada para trabalhar na Universidade do Vale do Taquari (Univates). Na instituição, atuou por 14 anos em diversas funções, entre eles, nos projetos de Alfabetização Solidária e Rondon. "Também foi um trabalho muito lindo. Fomos para diversos estados do Nordeste, estive no Pantanal... Lembro sempre de um lugar que fomos no Piauí: foram quatro horas de viagem de barco, depois entramos numa mata, e ali estava uma professora dando aula. Eu vi coisas incríveis na vida."

Se foi um privilégio ver tudo isso? Ela não tem dúvidas. "Eu acho que isso tudo aconteceu porque eu entendo de gente, eu gosto de gente", resume Dorli, que não só gosta, mas é especialista em formar gente de bem.

 

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