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Caminhoneiros continuam parados nas estradas da região

Manifestantes não concordam com proposta apresentada pelo governo federal

Créditos: Carolina Schmidt, Julian Kober, Matheus Aguilar, Marcio Souza e Rita de Cássia
- Frederico Sehn Fotografias/divulgação

Vale do Taquari - O acordo proposto pelo governo federal para que os caminhoneiros suspendessem a paralisação por 15 dia nas estradas do Brasil não surtiu o efeito desejado pelo Palácio do Planalto. Ao contrário do que pretendia a União, a mobilização dos transportadores de carga continuou a pleno em praticamente todo o território nacional. No Vale do Taquari, a sexta-feira foi o dia com maior apoio da população.

Em Estrela, o comércio do Centro da cidade fechou as portas por uma hora, entre 15h e 16h. Foi a forma encontrada de manifestar apoio aos caminhoneiros parados. Cartazes foram afixados em alguns estabelecimentos para informar possíveis clientes sobre o motivo das portas fechadas. No calçadão, muitos dos participantes vestiam peças em verde e amarelo. O Hino Nacional foi entoado pelos presentes.

A farmacêutica Ciliana Franco destaca que, além do alto valor dos combustíveis, o ato dos representantes do comércio foi contra a alta carga tributária do país. A empresária Janaína Carvalho revela que a articulação foi feita via WhatsApp pouco antes do meio-dia.

Outro empresário do município que participou do ato é Adiel Krabbe. Ele diz que já está apoiando os manifestantes desde o começou da paralisação. "Já doei alimentos para eles. Essa é uma causa de todos e que vai favorecer o Brasil. Vai muito além do combustível. É uma oportunidade de acabarmos com a roubalheira no país", acredita. Antônio Cavalheiro pegou dois caminhões de brinquedo do filho e colou frases de apoio aos manifestantes. "É uma luta que tem nosso apoio. Acho que é válido passarmos por um pequeno transtorno agora até que se chegue onde queremos. É a nossa hora", afirma.

Um outro grupo de empresários caminhou pelo canteiro central da 386 até a altura da concentração dos caminhoneiros em Estrela. Conforme Maiguel Werner, o objetivo era mostrar apoio a causa. "É para todos os brasileiros. Tem que ter uma mudança radical", afirma. O grupo carregava uma faixa pedindo intervenção militar.

Em Taquari, comerciantes aderiram à mobilização na tarde de ontem. A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do município convocou os associados para participarem da manifestação. Conforme a Brigada Militar, mais de duas mil pessoas estiveram presente no trevo de acesso a cidade, na Rodovia Aleixo Rocha da Silva.

 

Governo autoriza uso das Forças Armadas

Nesta sexta-feira, o governo federal informou que vai acionar as forças de segurança nacionais para liberar as estradas e as Forças Armadas utilizadas para garantir o abastecimento da população. Um decreto de Garantia de Lei e Ordem (GLO) foi assinado com validade até o dia 4 de junho.

Conforme o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmman, o presidente Michel Temer ainda pode editar um decreto para permitir a requisição de bens, prevista na Constituição, para que alimentos, combustíveis, medicamentos e insumos cheguem à população, em todo o país. Ele acrescentou que os militares têm o respaldo legal para assumir a direção dos caminhões dos grevistas, se assim necessário. "O artigo 5, inciso 25 da Constituição Federal permite a requisição de bens, caso se faça necessário, em condições de pilotar veículo para que o desabastecimento seja contido e voltemos a ter distribuição regular", afirma.

Para o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, houve redução dos bloqueios de estradas em todo o país. Segundo os números apresentados pelo governo, informados pela PRF, das 938 obstruções e interdições de rodovias, 419 já foram liberadas. Há ainda 519 pontos de interdições, já parciais, segundo o governo. O ministro admitiu que a liberação ocorre com menos velocidade do que o esperado.

 

HBB adia cirurgias

Na manhã desta sexta-feira, o Hospital Bruno Born (HBB) divulgou comunicado informando o adiamento das cirurgias eletivas de segunda-feira. A remarcação será necessária por conta da falta de materiais de consumo hospitalar para tais procedimentos. Os pacientes serão contatados para o reagendamento.

Se a paralisação continuar, o HBB vai reavaliar a realização dos procedimentos cirúrgicos dos outros dias. Os atendimentos de urgência seguem sendo realizados enquanto houver materiais disponíveis.

 

Hospital Estrela prioriza urgências e emergências

Em virtude da falta de fornecimento de materiais - devido a situação de desabastecimento - alguns serviços do Hospital Estrela estão sendo afetados. Segundo a vice-diretora, Adriana de Siqueira, a instituição de saúde prioriza urgências e emergências. Além disso, algumas cirurgias eletivas marcadas para a próxima segunda-feira, foram canceladas. A orientação aos funcionários é o uso racional de insumos para manter o atendimento o mais tempo possível. Outra alternativa colocada em prática é o projeto carona para buscar e levar colaboradores ao trabalho. "Pedimos que as pessoas somente procurem o hospital se realmente precisarem", explica. A vice-diretora ainda destaca que uma das grandes preocupações também com a possível falta de medicamentos.

 

Proporção

Caminhoneiro há 30 anos, Eduardo Alves diz não ter visto manifestação semelhante dos profissionais autônomos da categoria. Ele participa do manifesto na RSC-386, no acesso ao porto de Estrela. Assim como os demais que estão no local, é contra a proposta apresentada pelo governo federal. "É uma vergonha, porque ninguém veio ouvir a nossa opinião. Sou contra, porque as pessoas do governo tomam uma garrafa de vinho que custa R$ 90 mil e nós, caminhoneiros, temos que rodar 12,8 mil quilômetros para sobrar R$ 3 mil de frete. Não sobra quase nada, temos despesas, tudo subindo. É triste", afirma.

Na opinião de Alves, o preço de combustível deveria ser de R$ 2,50 para a população e para uma mudança no país, a intervenção militar seria a solução. "Com o exército nas ruas, teríamos mais respeito com o cidadão, segurança e educação. Do jeito que está, com essa corrução e preços subindo, não dá mais."

 

Linhas canceladas

A Rodoviária de Lajeado informou que mais quatro empresas de ônibus reduziram as linhas para o final de semana. A Viasul cancelou os seguintes horários para Venâncio Aires: hoje, não haverá ônibus às 6h25, 8h45, 9h, 10h40, 15h25 e 16h30. No domingo às 6h25 e 16h25.

A viação Bento anunciou o cancelamento de viagens para Serafina Corrêa: no sábado, às 6h40, 10h55, 14h25 e 18h. No domingo, 8h15, 14h25 e 18h40. Já a Azul reduziu os horários para Porto Alegre: no sábado, 9h, 12h15, 15h30 e 18h. E domingo às 8h (via Teutônia), 15h (via Teutônia), 16h e 19h35. Por fim, a Planalto cancelou a linha das 11h no domingo para Santa Cruz do Sul. Mais informações podem ser obtidas pelo 3011-3911.

 

Mobilização continua

A greve dos caminhoneiros segue no Vale do Taquari, após a não aprovação da categoria da proposta realizada pelo governo federal na noite de quinta-feira. Na RSC-386, mais pessoas se uniram à categoria, próximo da ponte no limite entre Estrela e Lajeado.

"Vamos continuar, enquanto o governo não nos fizer uma boa proposta. Todos são afetados com os altos preços de combustível e impostos. Com os aumentos, está difícil o pão de cada dia chegar em casa. Acredito que os movimentos ganhem mais força. A mudança é agora ou nunca", diz o caminhoneiro Jonas da Cruz. Segundo ele, durante a noite de quinta-feira e madrugada de sexta, a maior dificuldade foi o não respeito à sinalização do bloqueio. Até a manhã de sexta, os caminhões e carros de empresas que apresentavam cargas eram abordados.

Na manifestação da entrada do Bairro Conventos, em Lajeado, a noite e madrugada foram tranquilas. Um dos organizadores do protesto, Domingos Piovesani, também destaca que o protesto não tem previsão de término. No local, a passagem é liberada para veículos com medicamentos, ambulâncias, ônibus e carros de passeio. "Peço o apoio da comunidade, pois toda a população brasileira é afetada pela alta dos preços. Se a manifestação continuar por mais 15 dias, o governo vai ter que solucionar de um jeito ou de outro. Amo a minha profissão, dependo de remédios, e estou aqui lutando. Solicitei medicamentos ao governo e não recebi. Uma mudança tem que ter, estamos manifestando aqui sem agressão, mas para conscientizar."

 

Reserva de veículos de emergência

Durante a tarde desta sexta-feira, o tenente-coronel Marcelo Maya, comandante do 22º Batalhão de Polícia Militar, esteve em vários pontos de concentração de caminhoneiros na região para conversar com as lideranças. O objetivo era informar que o Posto do Arco, em Lajeado, mantém uma reserva técnica para abastecer veículos de emergência devidamente caracterizados. De acordo com o comandante, a conversa com as lideranças era para evitar que informações distorcidas chegassem até a categoria e para tranquilizar os manifestantes de que apenas os carros caracterizados e de serviços de emergência poderão abastecer no local. Uma guarnição ficará no posto para evitar que carros particulares tentem encher o tanque ou intimidar frentistas que se negarem a fazer o abastecimento. A medida foi apoiada pelos caminhoneiros, que agradeceram a disponibilidade do comandante de conversar com a categoria sobre esta situação. Em Estrela, um grupo afirma que, se necessário, os que moram próximo e possuem carros com gasolina doarão parte do combustível para a manutenção dos serviços de segurança e saúde.

 

Manifestante baleado

O motorista de um GM/Chevrolet D20, placa de Porto Alegre, atirou em um dos manifestantes na proximidade do ponto de concentração em Estrela. A vítima é Luiz Carlos Mendes Wobedo. Ele é um dos caminhoneiros concentrados no km 341 da RSC-386, em Lajeado. Conforme Juliana Oliveira, esposa de Wobedo, ele tinha ido até o local conversar com amigos que estão naquela manifestação quando o atirador não respeitou o pedido de redução da velocidade na manifestação de Lajeado e fugiu arrastando um dos cones que sinaliza o trânsito no local. Os manifestantes em Estrela foram informados e ao perceberem a aproximação do veículo, tentaram fazer a abordagem. O condutor do D20 teria então sacado uma arma e efetuado o disparo. Wobedo foi atingido na artéria femoral e quebrou uma perna. Ele está em estado estável. O atirador foi detido pela Brigada Militar em Fazenda Vilanova. Uma homenagem foi feita a Wobedo na concentração da categoria em Lajeado.

 

Supermercados têm abastecimento prejudicado

A paralisação afetou o abastecimento de produtos nos supermercados em Lajeado. Conforme o gerente comercial da Rede Super, Pedro Luís Cassana, alguns alimentos perecíveis já estão começando a faltar. "Por enquanto, só sofrem desabastecimento de produtos perecíveis, desde hortifrutigranjeiros, açougue e padaria. Os demais estão em situação normal porque o mercado possui um estoque grande. Mas, conforme o andar da paralisação, vão começar a faltar algumas marcas", afirma.

O supermercado STR enfrenta o mesmo problema. Segundo o supervisor da loja, Celso Ademir Juchum, o estabelecimento está com dificuldade de abastecer os estoques de laticínios, refrigerados e da fruteira. "Muitos caminhões não conseguiram fazer a entrega. Por enquanto, o açougue está normalizado. Mas a tendência é que piore durante o final de semana", diz. Na próxima semana, também poderá faltar produtos da padaria.

Na rede de mercados Super Imec, a equipe do marketing afirmou que o atendimento está normalizado. Porém, em nota divulgada nas redes sociais, alguns produtos podem vir a faltar nas prateleiras.

Conforme a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), o setor supermercadista, responsável pelo abastecimento de 90% dos itens de necessidade básica dos gaúchos, não ficará desabastecido de alimentos nas próximas semanas. Em nota divulgada pela entidade, o presidente da Agas, Antônio Cesa Longo, buscou tranquilizar os consumidores em relação aos estoques das lojas do segmento. "Se a paralisação dos caminhoneiros perdurar, faltarão produtos pontuais, mas o desabastecimento completo não ocorrerá. Os consumidores seguirão encontrando produtos alimentícios, bebidas e itens de higiene e limpeza nos supermercados, a menos que a greve se estenda por muitas semanas. O Estado possui 4,4 mil supermercados e, se o cliente não encontrar algo em uma loja, poderá encontrar este mesmo item em outro ponto de venda", afirma.

 

AGV e CDL Lajeado se posicionam

A paralisação dos caminhoneiros, iniciada na última segunda-feira em todo o Brasil, já tem seus primeiros reflexos negativos, impactando o sistema produtivo e o funcionamento de diferentes setores. A falta de gasolina nas bombas, a suspensão do trabalho em frigoríficos e indústrias ligadas ao setor da alimentação e o risco de interrupção do transporte público são algumas dificuldades já percebidas e que tendem a se agravar com a escassez de insumos e consequente influência na economia nacional. A Associação Gaúcha para Desenvolvimento do Varejo (AGV) e a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Lajeado são favoráveis ao movimento que, entre outras reivindicações, protesta contra os seguidos aumentos no preço do combustível e à alta carga tributária incidente, o que reduz drasticamente os resultados financeiros de todos.

Para o presidente da AGV, Ricardo Diedrich, a redução de impostos é essencial para garantir o poder de compra e a economia nacional girando. "É difícil empreender em um país que onera demais. O peso no bolso do empresário está cada vez maior. Apoiamos qualquer movimento legítimo de diminuição de impostos, redução do Estado e que dê condições de retornar a confiança do consumidor", afirma.

Presidente da CDL Lajeado, Heinz Rockenbach compartilha da visão de Diedrich, reconhecendo a dificuldade de se manter no mercado com tamanha obrigação tributária: "Sou contra manifestações que afetam o direito de ir e vir, mas vejo que nesse caso é a única forma de chamarmos a atenção do governo de que quando queremos, somos capazes de parar o país."

 

Aulas de escolas da região são suspensas

Escolas de diversos municípios do Vale do Taquari tiveram as aulas suspensas. Conforme a responsável pela 3ª Coordenadoria Regional de Educação, Greicy Weschenfelder, seis educandários estaduais tiveram que suspender as atividades: a Escola de Ensino Médio (EEM) São Rafael e a EEM São Miguel, de Cruzeiro do Sul; o Instituto Estadual de Educação (IEE) Monsenhor Scalabrini, de Encantado; a EEM Vespasiano Corrêa de Vespasiano Corrêa, e as Escolas Estaduais de Ensino Fundamental (EEEFs) Nossa Senhora de Assunção e a Doutor Antonio Porfirio Menezes Costa, de Taquari.

A coordenadora acredita que mais escolas poderão ser fechadas na próxima semana. "A situação tende a ficar cada vez mais complicada se a greve continuar. As escolas vão ficar abertas até o último caso. Mas teremos que analisar as situações pontuais uma por uma. Pois eu preciso no pior cenário para o transporte de alunos e professores, merenda e outras questões."

A EEEF Irmã Branca, de Lajeado, não vai abrir as portas na segunda-feira. "O transporte da maioria dos alunos é feita por Topic. E o responsável pelo transporte disse a diretora que não vai ter gasolina para levar os estudantes", explica Greicy.

Em Santa Clara do Sul, as aulas na rede municipal de ensino, tanto de Ensino Fundamental quanto de Educação Infantil, serão canceladas na segunda e terça-feira, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação. O transporte escolar será interrompido nesses dias. No caso dos colégios de Ensino Fundamental, a normalização das aulas e do transporte escolar está prevista para quarta-feira. Além disso, os jogos que ocorreriam nos dias 29 e 30 de maio também foram cancelados e uma nova data será anunciada pela secretaria.

A Faculdade La Salle, em Estrela, também informou aos alunos que as aulas de graduação e pós-graduação sexta e sábado foram canceladas devido à paralisação dos serviços de transporte e falta de combustíveis.

No Colégio Madre Bárbara, em Lajeado, o sábado letivo, que seria realizado hoje, também foi suspenso devido à impossibilidade de deslocamento das famílias até a escola.

De acordo com a titular da Secretaria Municipal da Educação de Lajeado, Vera Lucia Plein, o transporte de alguns alunos será comprometido na segunda-feira. "A empresa Scherer suspendeu o transporte nos bairros Igrejinha, Olarias, Campestre, Moinhos D'Água e São Bento. Mas os alunos já foram comunicados", frisa.

Agora, a pasta vai aguardar até segunda-feira para ver como vai estar a situação. "Sabemos que temos professores e monitores que moram em outras cidades e que dependem de transporte intermunicipal ou de combustível. Então, a gente sabe que a situação está delicada e que nem todos conseguirão vir até o trabalho."

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