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Paixão e política

A prisão do ex-presidente Lula trouxe à tona mais uma vez a paixão como elemento central da política.


A prisão do ex-presidente Lula trouxe à tona mais uma vez a paixão como elemento central da política. Enquanto personagem político, ele, como poucos, é capaz de despertar, de um lado e de outro, os sentimentos mais extremados. Os antigos gregos do período clássico idealizaram a política como âmbito da razão, aquela esfera da vida em que os sujeitos políticos debateriam, com argumentos racionais, o bem da cidade (pólis). Assim, pensadores da época, como Aristóteles, entendiam que ética e política eram inseparáveis, no sentido de que o agir ético consistia, para eles, no caminho do meio, na moderação, no equilíbrio, no domínio das paixões: não posso agir nessa esfera movido pelo ódio, pelo medo ou pelo desejo.

Então, seriam os sentimentos de amor e de ódio por Lula externos à política? Ou são justamente essas paixões viscerais que nos retiram da indiferença e da apatia com relação aos destinos da coletividade e que nos fazem participar da política ativamente? Mesmo que tomemos ainda hoje a referência da racionalidade para o debate político, aquilo que nos mobiliza politicamente não é puramente racional. Quer dizer, ainda que alguém afirme ter razões para adotar determinado posicionamento ideológico, me parece - e aí o que tenho é apenas uma hipótese - que algo nos mobiliza muito visceralmente para tomarmos um posicionamento como o melhor ou o mais justo.

Para além de nos interrogarmos se devemos amar ou odiar Lula, talvez devêssemos nos propor as perguntas "Por que amamos Lula? Por que odiamos Lula?". Essas perguntas deveriam ser feitas de forma franca, não nas redes sociais, em que queremos ganhar os debates com respostas lacradoras, mas diante do espelho, numa espécie de autoanálise política. Me parece, porém, que não há espaço para esse processo hoje, pois mesmo a racionalidade tem sido usada como arma para alimentar o fogo dessas paixões que mobilizam a política brasileira nos últimos anos.


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