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Merlí

A série que dá título à coluna de hoje não é americana; vem da Catalunha.


É uma maldição. Quando a gente se dá conta, já era. É um caminho sem volta. Assistir séries é um dos males do século. Apesar de ter essa cara atual, a fórmula do fenômeno - pelo menos em termos comerciais - ainda é a mesma dos folhetins do século 19: ao final de cada episódio, uma promessa, uma curiosidade ou uma trama inacabada que nos obrigam a esperar ansiosamente o próximo episódio. Ainda que sejam usados esses expedientes sorrateiros próprios da indústria cultural, é visível que não apenas a quantidade dessas produções aumentou muito, mas também sua qualidade. No principal polo produtor desse gênero de comunicação, os Estados Unidos, a televisão, que era considerada uma arte menor em comparação com o cinema, ganhou prestígio - tanto que atores e atrizes consagrados em Hollywood foram participar de séries de TV.

Entretanto, a série que dá título à coluna de hoje não é americana; vem da Catalunha. Merlí é o nome de um professor de filosofia, de seus cinquenta anos, que, no início da trama, está desempregado e é despejado de seu apartamento, indo, então, morar com sua mãe e seu filho adolescente. Ele recebe um telefonema em que é chamado a dar aulas numa escola pública, justamente onde estuda o seu filho. Merlí não é muito afeito às regras e às burocracias, entrando assim em conflito com o diretor da escola e com os colegas mais tradicionais. Ele leva seus alunos - a quem chama "peripatéticos" - a caminhar pela escola durante aula, tal como Aristóteles no Liceu em Atenas, o que causa estranhamento a todos. Cada episódio recebe o nome de um filósofo ou de uma escola filosófica, e a trama, de alguma forma, se relaciona com o tema da aula do professor. Dessa maneira, o professor e, por extensão, a série nos falam sobre a utilidade da filosofia, questão importante em tempos em que se diz por aí que essa disciplina atrapalha o desempenho dos estudantes em matemática, esta sim uma disciplina útil - nesse momento, Pitágoras, Descartes e Leibniz contorcem-se na prateleira.

Para além desse aspecto de entendermos a importância da filosofia, a série é recomendável também por outros motivos. É falada em Catalão, uma língua latina que pouco ouvimos, que tem elementos do espanhol, do francês e do italiano, produzindo uma sonoridade muito peculiar. A Barcelona mostrada na série não é a Barcelona dos turistas - a quem Merlí odeia profundamente -, mas uma cidade comum, com lugares nada suntuosos, que retratam os dramas igualmente prosaicos daqueles personagens. E os personagens não seguem aquelas fórmulas maniqueístas de bonzinhos e malvados. O próprio Merlí não é exatamente um modelo de ética. Um dos meus personagens favoritos, é o Pol, um rapaz que? bom, esse assunto vai ter que ficar para um próximo episódio - quer dizer, próxima coluna.


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