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A jornada escolar

E como qualquer outra instância do processo civilizatório, a escolarização é um caminho repleto de contradições


Nesta quinta, 15 de fevereiro de 2018, meu filho iniciou um momento importante da sua jornada escolar, ao entrar para o 1o ano do Ensino Fundamental. Há, para ele, um fascínio que tem a ver com o ritual de passagem, com "ser grande". Para mim, que já percorri esse caminho, o fascínio de imaginar as possibilidades que essa experiência abrirá para ele. Ele entrará em contato com uma das instituições centrais da civilização moderna. E como qualquer outra instância do processo civilizatório, a escolarização é um caminho repleto de contradições. Ela nos promete uma série de recompensas caso nos adaptemos a ela. A promessa primordial da escola moderna (iluminista) é o conhecimento e, por meio dele, nossa libertação das trevas da ignorância. Por outro lado - como dizia um professor meu -, a escola nos escolariza; quer dizer, nos submete à sua disciplina e ao seu modo de organização do mundo.

Nem todos se adaptam a isso. Um colega me dizia, sobre seu filho adolescente: "esse negócio de sala de aula não é pra ele!". Com isso, ele quis dizer que a forma de aprendizagem do filho extrapolava o sistema educacional tradicional. Pela suas condições econômicas e culturais, esse colega podia acolher e até potencializar a inadaptação do filho. Porém, aqueles tantos inadaptados que não têm essa mesma retaguarda serão vistos, provavelmente, como problemáticos, preguiçosos ou coisa pior.

Esta questão tem ocupado os pensadores da Educação há várias décadas: como pode a escola acolher e potencializar as diferentes formas de aprendizagem? O que fazer para que ela não se transforme nessa máquina de produção de uma massa amorfa e passiva de indivíduos - satirizada de forma contundente no clipe de Another Brick in the Wall, do Pink Floyd? Não há como saber que transformações ocorrerão nessa instituição nos próximos 12 anos - tempo que meu filho levará para cumprir essa jornada. De qualquer forma, me parece que, por um bom tempo, ela continuará existindo e produzindo em nós esse sentimento dúbio de libertação e aprisionamento. Espero que meu filho possa aproveitar o que de bom a escola pode oferecer, e que ele saia do outro lado um sujeito mais livre e dono de si.


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