Economia

Embargo europeu ao frango brasileiro deixa setor em alerta

Decisão de proibir o embarque da produção de 20 unidades não atingiu a região, mas futuro é indefinido

Créditos: Matheus Aguilar *com informações da Agência Brasil
- Lidiane Mallmann

Vale do Taquari - A decisão da União Europeia (UE) de descredenciar 20 unidades brasileiras autorizadas a vender carne de frango para o bloco econômico não atingiu a região. O que não significa que não haja apreensão nos representantes locais do setor. A medida da UE afeta unidades de nove empresas, conforme a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e foi tomada depois da terceira etapa da Operação Carne Fraca. A chamada Operação Trapaça investiga fraudes nos resultados de análises laboratoriais relacionados à contaminação pela bactéria Salmonella pullorum.

A situação pode afetar os empregos do setor e famílias que vivem da avicultura. Em um primeiro momento, o Vale do Taquari não deve sentir os efeitos da decisão. Mas os reflexos na região ainda são indefinidos. O frango produzido aqui para exportação não atende o mercado europeu, segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Avícolas e Alimentação em Geral de Lajeado e Região (Stial), Adão Gossmann. "Os dois frigoríficos daqui exportam para os Emirados Árabes. Por enquanto esse embargo não afeta o trabalho aqui, mas pode ter reflexos no futuro", comenta.

De acordo com a ABPA, as unidades descredenciadas respondem por 30% a 35% da produção exportada para a UE. A associação considera a decisão tomada pelos estados europeus como "infundada" e uma "medida protecionista que não se ampara em riscos sanitários ou de saúde pública". O embargo pode fazer com que o produto que seria exportado para a Europa seja comercializado no país. O aumento da oferta faz com que o preço caia, principalmente nas regiões onde estão as unidades cuja produção não pode ser vendida para o bloco.


Decisão comercial
O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, diz que a decisão da União Europeia (UE) é apenas comercial e que irá acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC). Um estudo encomendado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) vai embasar o painel que o Brasil quer apresentar na OMC contra a UE. Maggi afirma que o ministério vai pedir o recadastramento das plantas, uma vez que os problemas apontados sejam sanados, mas que não há prazo para que isso ocorra.

O painel proposto deve questionar os critérios determinados para os embarques de produtos salgados (com apenas 1,2% de sal adicionado), que são obrigados a cumprir critérios de análise para mais de 2,6 mil tipos de Salmonella. Para os produtos in natura (sem sal adicionado), são feitas análises para apenas dois tipos.

Segundo o vice-presidente de Mercado da ABPA, Ricardo Santin, as salmonellas presentes na carne "são aquelas que morrem com cozimento, em temperatura acima de 70 graus Celsius. A água ferve a 100 graus, ou seja, qualquer processo de cozimento já inativa a bactéria". Ele ressalta que o frango não oferece riscos à saúde e que os brasileiros podem comprá-lo sem preocupação. "O frango é a carne mais consumida no Brasil e a mais barata. Não há nenhum risco nesse caso, trata-se de um problema comercial."

Em nota, a ABPA destaca que "a decisão tomada pela Comunidade Europeia é desproporcional e inconsistente diante das regras estabelecidas pelo Acordo de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias da Organização Mundial do Comércio (OMC)".

BRF diz não ter sido ouvida

Em nota, a BRF declara acreditar que a decisão europeia de suspender as importações da empresa não foi baseada em questões sanitárias, mas por motivações políticas e de proteção do mercado local. "Tal decisão não foi precedida por uma investigação dos fatos por parte das autoridades europeias, e a BRF não teve a chance de ser ouvida. Essa decisão evidencia uma barreira comercial, que não impacta apenas a BRF, mas a balança comercial brasileira, dada a expressiva contribuição da companhia no saldo positivo de exportações", explica o texto.

A companhia também garante que vai iniciar a revisão de seu planejamento de produção. Nas unidades de Capinzal (SC), Rio Verde (GO), Carambeí (PR) e Toledo (PR), os funcionários devem ter férias coletivas. "Ainda é prematuro prever o impacto dessa revisão, dada a complexidade da cadeia produtiva na qual a BRF está inserida", prossegue a nota.

A empresa garante que vai procurar seus direitos perante os órgãos responsáveis europeus e "suportar integralmente as ações do governo brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC) para garantir todos os direitos de continuar servindo seus clientes na União Europeia, a partir de seu parque fabril brasileiro", reforça o texto.

Saiba mais

O Brasil é o segundo maior produtor de carne de frango do planeta, perdendo apenas para os Estados Unidos, mas ocupa a primeira posição entre os maiores exportadores do produto. São mais de 4,3 milhões de toneladas embarcadas e receitas anuais de US$ 7,2 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). A União Europeia é responsável por 7,3% do frango vendido pelo país ao exterior, em toneladas, e corresponde a uma receita total de US$ 775 milhões (11% do total), segundo dados de 2017.

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