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Quem tem medo do Bolsonaro?


Imagine um país comandado por um presidente com tendências totalitárias, com uma visão racista e homofóbica do mundo.
Para muitos, especialmente a Zona Sul carioca e boa parte da inteligência universitária brasileira, esse será o Brasil de 2019 se Bolsonaro vencer as eleições presidenciais.
Mas esse país já existe. Chama-se Rússia e recentemente sediou uma bem-sucedida Copa do Mundo de Futebol.

Imagine um país governado por um dirigente que não para de falar asneiras, muitas delas misóginas e apoiado por uma multidão de pessoas ignorantes e grosseiras.
Para boa parte do PIB brasileiro, especialmente os banqueiros paulistas, esse é o Brasil que teremos após as eleições desse ano se Bolsonaro vencer.
Acontece que esse país já existe... e se chama Estados Unidos da América.

Imagine um país comandado pela extrema direita com preocupação extrema com segurança e simpatia por governos fascistas do passado.
Para boa parte da imprensa brasileira, essa é a realidade inexorável do país se as urnas consagrarem o ex-capitão do Exército Brasileiro.
No entanto, esse país também já existe. Chama-se Áustria e recentemente passou a ser governada por uma coalizão de dois partidos que inclui o Partido da Liberdade da Áustria (FPO), um partido formado por ex-nazistas na década de 1950.

Voltemos agora ao Brasil real. Uma pesquisa chamada As Preocupações do Eleitor Brasileiro, encomendada pela RecordTV e divulgada em julho desse ano, aponta que os principais medos da população para os próximos quatro anos são perder um ente querido de maneira violenta e sofrer algum tipo de violência pessoal, como um assalto.
Quando perguntados como avaliam a preocupação de sofrer uma violência pessoal, apenas 3% dos entrevistados afirmam não estar nada preocupados. A maior parte (85%) se diz muito preocupado, 10% afirmam estar razoavelmente preocupados e 2%, pouco preocupados.
O coordenador da pesquisa, Bruno Soller, afirma que os dados mostram um eleitor "insatisfeito e incrédulo com quase tudo".

Dito isso, não precisamos ir muito longe para encontrar entre os candidatos a presidente qual se posiciona de maneira mais enfática sobre a questão da segurança. Ou seja, Bolsonaro está falando o que boa parte do eleitorado quer ouvir.
Depois da violência, a corrupção aparece como o tema que mais preocupa os brasileiros - 78% dos entrevistados apontam estar muito preocupados com o aumento da prática no país.
Apenas 6% afirmam estar despreocupados com o avanço da corrupção. Soller diz que essa é uma das maiores preocupações, porque o assunto está presente todos os dias no noticiário. "A pessoa convive com isso, ela não consegue ver um horizonte bom", comenta.

Isso também ajuda a explicar a popularidade atual de Bolsonaro. Ele inteligentemente soube desviar dos partidos e políticos envolvidos com a Lava-Jato, ainda que isso significasse míseros segundos na televisão. (PS: alguém ainda assiste a programa político no rádio ou TV?)
Muito se discutiu a questão do vice de Bolsonaro. A escolha de um general para o cargo pode parecer assustador para muitos. Mas o Exército Brasileiro é considerado uma das instituições brasileiras mais confiáveis há muito tempo. Além disso ajuda a transmitir uma sensação de ordem num país que há muito mergulhou no caos.

Como se tudo isso fosse pouco, o escolhido de Bolsonaro para a economia não só fala bem como é direto e transmite confiança.
Além disso, em 2018, o voto evangélico vai ter um peso importante. E eles procuram alguém com o seguinte perfil: "O que nós entendemos que a sociedade anseia hoje é por um candidato que tenha compromisso com a questão do liberalismo do mercado, alguém que respeite regras do mercado, que seja pró-desenvolvimentista, capaz de gerar emprego, capaz de dar garantias do ponto de vista do crescimento econômico e ao mesmo tempo que seja conservador nos valores, na família natural, homem e mulher, na vida, contra a questão do aborto", explica bispo Robson Rodovalho.
Adivinhe quem se encaixa nesse perfil?

Para terminar, é necessário que se diga que Bolsonaro é a única novidade, para bem e para mal, num marasmo de candidatos.
Bolsonaro deixou de ser alguém exótico e se transformou numa possibilidade real de vitória, quer gostemos dele ou não.


Marcos Frank

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