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Os irracionalismos

Vacinar não é coisa nova. Assim como o medo de vacina também não é.


"O saber contra a ignorância, a saúde contra a doença, a vida contra a morte..." Osvaldo Cruz (1872-1917)

Vacinar não é coisa nova. Assim como o medo de vacina também não é. Essa história é muito antiga e começa ainda no primeiro milênio após Cristo. Nessa época os chineses já protegiam sua população por meio da variolação. Isso era algo que funcionava assim: introduzia-se na pele de indivíduos sãos o líquido extraído de uma crosta de varíola de um indivíduo infectado, havia o risco de se contrair a doença, mas se desse certo, garantia-se imunidade.

Da China essa técnica se espalhou para África e para o império turco otomano onde por volta do século XVIII Lady Mary Montagu, esposa do embaixador inglês em Istambul, presenciou a aplicação da técnica. Naquela época era raro não contrair varíola durante a vida, uma doença que matava de 10 a 40% dos contaminados.

Alguns anos depois, próximo ao final do século XVIII, o médico inglês Edward Jenner observou que pessoas que se contaminavam com varíola bovina, um velho costume dos camponeses, ficavam protegidas contra a forma humana de varíola. Como resultado dessa observação, o vírus causador da varíola bovina passou a substituir o vírus da varíola na técnica de variolação, originando uma mortalidade muito inferior à deste último.

Mas por essa época ainda não se tinha uma noção clara da relação entre os micro-organismos patógenos e as doenças que esses causavam. Apenas setenta anos mais tarde Koch e Pasteur não só descobriram essa relação como também descobriram como atenuar vírus para produzir vacinas.

A partir dali muitas doenças mortais passaram a ser controladas: 1798 varíola, 1885 raiva,1897 peste,1923 difteria,1926 tosse convulsa,1927 tuberculose,1927 tétano,1935 febre amarela,1955 pólio injetável,1962 pólio oral,1964 sarampo,1967 caxumba,1970 rubéola,1981 hepatite B.

Mas como funciona essa incrível arma? Quando as pessoas são infectadas nosso sistema imune reconhece o micro-organismo causador e produz proteínas chamadas de anticorpos. Além de ajudar a combater invasores, os anticorpos formados permanecem no organismo prontos para destruir invasores futuros que serão imediatamente reconhecidos.

O papel de uma vacina é introduzir um patógeno morto ou enfraquecido de forma que nosso sistema imune possa criar anticorpos sem adoecer ao primeiro contato. Ou seja, ser vacinado ou ser infectado produz o mesmo resultado em termos de anticorpos e isso é especialmente importante em doenças de alta mortalidade como a raiva, por exemplo. Além disso, se uma população tem altos índices vacinais isso impede a doença de se espalhar.

Depois dessas grandes descobertas parecia que um futuro brilhante estava se descortinando para as vacinas, mas na ultima década são cada vez mais frequentes os casos de pais que resolvem não vacinar seus filhos.

Essa aliás é uma polemica antiga tendo ocorrido também no Brasil quando o governo tornou obrigatória a vacinação contra varíola. Vamos ler como os jornais da época noticiaram o fato: "Tiros, brigas, engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e queimado, lampiões quebrados às pedradas, destruição de fachadas dos edifícios públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz" (Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904).

Mais recentemente um artigo publicado pela prestigiada revista Lancet, em 1998, ligou autismo a vacina tríplice. Mais tarde se viu que o autor fraudou e falsificou dados e a revista se retratou, mas já era tarde e o estrago estava feito.

A partir dali caíram às taxas de vacinação e as redes sociais foram invadidas por notícias alarmistas como essa do autismo, de médicos e laboratórios escondendo resultados negativos ou de que vacinas conteriam toxinas.

Somado a isso, vacinas mais recentes como as contra gripe, que não possuem proteção absoluta contra a doença provocam dúvidas pertinentes na população.

É preciso que se diga que há riscos reais, embora pequenos em ser vacinado, assim como ocorre com qualquer medicação. Essas informações não estão escondidas e podem ser consultadas em sites médicos confiáveis, nas bulas das próprias vacinas ou com o médico da sua confiança. Finalmente convém lembrar que os riscos dos efeitos colaterais são muito menos perigosos que os riscos de contrair a doença que a vacina protege.


Marcos Frank

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