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O fim do Rio

O Rio de Janeiro talvez tenha sido o pioneiro em entregar território e parte do poder do Estado ao crime organizado.


"Nós estamos firmes. Cada vez eu estou certo que os serviços, nossos serviços policiais, preventivos ou não, estão atuando sempre com eficiência maior e estamos procurando atacar as causas", Leonel Brizola, governador por duas vezes do Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro talvez tenha sido o pioneiro em entregar território e parte do poder do Estado ao crime organizado.

Onde o poder estatal não se impôs o poder paralelo do crime se impôs.

Primeiro o jogo, depois o tóxico.

Dominar, subjugar e lutar por território se tornou banal. Matar também.

A tolerância foi se ampliando e aceitou a morte violenta e o domínio territorial, o Estado foi cedendo território, sendo acuado e por fim até mesmo sua força policial se deixou subjugar.

Como resposta a fraqueza do Estado e avanço das facções surgiram as milícias, mas era apenas mais do mesmo só que agora na forma de taxa de proteção, exploração da entrega de gás, ligações clandestinas de energia elétrica e tevês a cabo e por último as vans de transporte coletivo.

Por fim a cidade maravilhosa virou essa confusão amoral que mostra bem o quê irá acontecer anos depois no resto do Brasil: você sabe que será roubado e sofrer violência, só não sabe por quem, e nisso se inclui o Estado também.

Ao mesmo tempo em que a barbárie se instala a cidade vive uma espécie de transe provocado pelas drogas, que talvez seja a única maneira de resistir a essa loucura tropical. Só que esse transe alimenta um dos monstros que devora o Rio.

O comando vermelho é e sempre foi violento e caótico. Desorganizado e mortal. Expulso da Rocinha, o CV voltou com força total, a invadiu novamente e voltou a apresentar seu cartão de visitas: adolescentes com fuzis nas mãos.

Mas agora terá de enfrentar a frieza e organização dos paulistas do PCC, que aliás também estão em guerra interna.

Como se não bastasse, o último carnaval mostrou ao mundo um acirramento da violência em um Estado onde um ex-governador e outras autoridades do Executivo e legislativo estão encarceradas devido a corrupção e negociatas.

Somado a isso temos ainda o fracasso das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), calamidade financeira, expansão da milícia e corrida armamentista do tráfico.

Que fazer numa situação como essa justo na cidade que é cartão postal do país?

Podia-se fazer o de sempre: ações pontuais e depois as facções e as milícias retomam seu território com a violência e ousadia habituais.

Pode-se também seguir a cantilena de saúde, educação e moradia. Mas algo que não foi resolvido com essa formula em 40 anos será que agora resolveria em curto prazo a situação caótica que se estabeleceu?

Podia-se ainda pedir ajuda novamente aos militares sem declarar intervenção, algo que já foi feito outras vezes, mas que provocava intensa irritação nos militares, pois todas as operações "vazavam", evidenciando o grau de contaminação entre o crime organizado e as polícias.

A solução escolhida opta por quebrar ovos e fazer algo inédito...o risco por trás dessa escolha é se falharem os militares, quem restaria para resolver a questão?

É isso que descobriremos nos próximos meses!


Marcos Frank

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