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Lugar nenhum

Talvez períodos de grande convicção sejam mais perigosos, mas com consequências imediatas menos perceptíveis. Da dúvida resta a reflexão.


Há um corpo do qual não posso me despir; um lugar de fala que não há como deixar. Experiências me perpassam e condicionam este texto a algo pessoal, subjetivo e até certo ponto incontrolável - o que torna a escolha do tema uma grande tarefa e a costura discursiva uma responsabilidade. Vejamos.

Me atordoa, como a tantos, a tal da "situação política", essa incerteza em relação ao futuro: o que de bom podemos esperar das próximas eleições e de suas consequências na vida que se julga normal, estável? Estranho pensar que noutros momentos tivéssemos podido justamente confiar em algo. Talvez períodos de grande convicção sejam mais perigosos, mas com consequências imediatas menos perceptíveis. Da dúvida resta a reflexão.

Mas quanta importância dada a instituições ditas superiores - à política, à sociedade - que nos são anteriores e mais nos fizeram do que nós as fizemos. Decidir o futuro de um país parece nobre, mas o que sobra de nossa inocência nisso tudo? Somos mesmo, de antemão, culpados e temos obrigação de criar raízes num solo que não se escolheu estar, mas que se aprendeu a gostar? Já fomos lançados sem pedir; agora, sem saber o que somos ou pra onde iremos, podemos ser sementes na terra, ou folhas soltas ao vento, ou. O próprio vento... que não tem forma, direção, duração; dança sem o dever de levar chuva aos lugares secos, nem frescor à atmosfera que não sujou e principalmente sem a dívida de carregar fardos alheios.

Há mais de cinquenta anos, Bob Dylan disse: quando você não tem nada, você não tem nada a perder. Sem nada a esperar deste momento, desta época, sem considerá-la superior ou sentir saudade de outras, sem um plano ideal que garanta o bem universal, talvez se possa vivê-la com mais intensidade.

Um especial agradecimento ao Flávio Meurer pelo convite para compartilhar este espaço quinzenalmente, ao jornal O Informativo do Vale pela confiança em meu trabalho, e aos leitores que convido a contribuírem com discussões, críticas e sugestões.


Tiago Segabinazzi

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