Colunistas

Ensaio sobre a sensibilidade

Créditos: Tiago Segabinazzi

A mulher que não consegue esquecer - relatos da síndrome de hipermemória é um livro escrito em 2008 pela estadunidense Jill Price. Desde 5 de fevereiro de 1980, quando tinha 14 anos, ela lembra de tudo que lhe aconteceu. Tudo: o que almoçou numa terça-feira qualquer, notícias que viu na TV, roupa que um amigo estava vestindo em algum aniversário seu... Informações que foram verificadas em fotografias, diários e outros registros para atestar a capacidade de armazenar sem esforço mais de 30 anos de dados cotidianos. Apenas outros três casos assim no mundo foram encontrados (Revista Galileu).

Surpreendente. Mas o que me causou mais curiosidade na hipermemória foi pensar que só é possível lembrarmos daquilo que percebemos. Óbvio, não - como lembrar da cor da calça do apresentador de telejornal que fica só com a parte superior do corpo acima da bancada? Talvez ele até use bermudas. Não é isso.

O que me intriga é pensar no que toca nossa percepção: da infinidade de coisas a se perceber no mundo, quais merecem um instante de nossa atenção? O que seduz nossos sentidos? E para além do sensório: neste perceber, com que tratamento cognitivo envolvemos as coisas?

Um cachorro lhe morde a perna na saída do trabalho - o pôr do sol se desenha no horizonte. Reparamos na forma das nuvens? Contamos quantos pássaros passavam em frente à luz? Ouvimos o timbre de seu canto? Cantavam? Não eram besouros? O que foi percebido e como?

Copa do Mundo. Seleção Brasileira. O cabelo do Neymar. Machismo dos torcedores. Trump e a imigração. Lava-jato interminável. A temerária eleição de 2018.

[...]

Enquanto tomava um café, um segurança veio até mim e mostrou o fruto, seco e duro - praticamente madeira -, da árvore que nos recobria: "Olha como é resistente, curioso; poderia ser usado para alguma coisa". Fogo, agora, no inverno? "Chaveiros! Olha esse desenho pronto, mais bonito do que a mão humana poderia formar se tentasse... todos esses frutos têm um padrão, mas cada um é único."

Não vou esquecer disso.


Tiago Segabinazzi

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