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"Não se pode fazer isso com o Supremo Tribunal Federal", disse Gilmar

Poderia ser um verso típico do sertanejo universitário, mas é o início da resposta do Luiz Roberto Barroso ao Gilmar Mendes, durante discussão entre os ministros na sessão do STF na quarta


"Me deixa de fora dessa, seu mau sentimento, você é uma pessoa horrível." Poderia ser um verso típico do sertanejo universitário, mas é o início da resposta do Luiz Roberto Barroso ao Gilmar Mendes, durante discussão entre os ministros na sessão do STF na quarta-feira. Houve certa comemoração pela atitude de alguém falar "o que o Gilmar há tempo merecia ouvir", mas o que mais ganhou importância foi a falta de compostura entre os membros da mais alta corte da Justiça brasileira: com o letramento que possuem e ocupando tal cargo, como poderiam discutir dessa forma?

Esta falta de elegância mostra que o rei está nu e, atrás de togas, paletós e auxílios, os ministros também estão: pessoas comuns, que brigam, xingam, têm interesses e agem por impulso como quaisquer outras. Parece óbvio, mas às vezes se tem a impressão de que uma decisão judicial, por invocar a Constituição e citar leis de olhos fechados, seja a revelação da verdade inquestionável - única, quase divina.

Talvez pela separação entre o "cidadão comum" e a casa sagrada das leis venha a imagem do deus judaico-cristão, perfeito, inquestionável; a isso podemos contrastar os deuses da mitologia grega, ciumentos, raivosos e safados, tal como os humanos: Hera era vingativa, Afrodite seria, digamos, uma "má influência", e Dionísio adorava festas e volta e meia dava PT. Comportamentos que não têm nada de puro ou de superior.

Há alguns dias, Marília Castro, desembargadora do Rio de Janeiro, disse que Marielle "estava engajada com bandidos" e condenava quem estava "tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro". Esse impulso que compartilha informações falsas por previamente acreditar em determinado discurso, assim como a treta entre o Barroso e o Gilmar, mostram que a justiça, mesmo com vocabulário sofisticado, roupas elegantes e se apoiando na solidez das leis, não é imaculada nem fruto de uma racionalidade pura: é perpassada por interferências diversas - como as preferências subjetivas e as emoções fugazes de seus interlocutores.

Era isso: só pra dizer que não há por que aceitar uma verdade primeira ou última. Nem em última instância.

Tiago Segabinazzi

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